Experiências acumuladas ao longo de anos nas estradas, no trânsito de Cláudio e até mesmo em situações em que parou para ajudar pessoas acidentadas levaram Raymundo Nonato Rodrigues Pereira, o Nonato do Beijo, à Tribuna Livre da Câmara Municipal.
Sem discurso preparado em linguagem técnica, ele levou ao plenário aquilo que afirma enxergar no dia a dia, que é a demora em alguns atendimentos de emergência, preocupação com a conduta de motociclistas e dúvidas sobre como caminhões e carretas conseguirão circular pela nova configuração da Avenida Dr. Silveira.
A participação provocou uma das discussões mais amplas da sessão. Vereadores concordaram com parte das preocupações, fizeram correções e contrapontos e levantaram possíveis encaminhamentos para os problemas apresentados.
As manifestações envolveram Darley Lopes (PDT), Kaká Amorim (Republicanos), Tindora do Chico Vilaça (PSB), Kedo Tolentino (Podemos), Nivaldo (PDT), Maurilo do Sindicato (PL), Rosângela Diretora (PSDB), Evandro da Ambulância (PL), Frederico Amorim (Avante) e o presidente Simental (Avante).
Nonato começou pela área que mais ocupou sua manifestação, que foi o atendimento a pessoas envolvidas em acidentes ou outras situações de urgência, onde fez menção ao Resgate Voluntário de Cláudio. Ele relatou episódios nos quais permaneceu ao lado de vítimas até a chegada da equipe responsável e criticou tanto o tempo de espera em determinadas ocorrências quanto a maneira como, segundo ele, alguns profissionais teriam tratado familiares e pessoas que já auxiliavam no local.
Em um dos relatos, mencionou o atendimento a um conhecido e afirmou que uma médica que estava próxima teria sido impedida de conversar com ele. Em outros casos, contou ter permanecido com motociclistas feridos e até conduzido uma vítima para atendimento diante da demora que, segundo ele, ocorreu.
As situações foram apresentadas por Nonato como relatos pessoais. Em uma delas, na qual uma mulher posteriormente perdeu uma perna, ele próprio fez questão de não atribuir a amputação à demora no socorro.
Motos e pedestres também entram no debate
O segundo ponto apresentado por Nonato foi o trânsito urbano.
Ele relatou situações envolvendo motociclistas e disse observar excesso de velocidade e manobras arriscadas em parte dos serviços de entrega. Também mencionou dificuldades enfrentadas por crianças, idosos e outros pedestres para atravessar vias de maior movimento.
Nonato sugeriu que os trabalhadores do setor sejam chamados para uma conversa de conscientização, ressaltando que reconhece a importância do trabalho dos entregadores, mas considera necessário discutir segurança e prudência.
A preocupação encontrou apoio entre vereadores.
Rosângela Diretora lembrou ações educativas já desenvolvidas no município e relacionou o debate ao Maio Amarelo, movimento voltado à prevenção de acidentes e valorização da vida. A Câmara já participou de atividades locais da campanha envolvendo profissionais e instituições ligados ao trânsito e à saúde.
Kedo também considerou pertinente reunir motociclistas e trabalhar a conscientização antes que novos acidentes aconteçam.
Maurilo do Sindicato também defendeu a execução da obra e mencionou recursos obtidos para o projeto. Para ele, problemas específicos, como a passagem de carretas próximo à estrutura citada por Nonato, podem ser estudados e corrigidos.
Já Nivaldo considerou pertinente a preocupação com a conversão dos veículos pesados e lembrou outras possibilidades de ligação viária que poderiam contribuir para desafogar o trânsito.
Frederico Amorim afirmou ser favorável à Avenida Dr. Silveira, mas avaliou que o alerta não deve ser ignorado apenas porque a obra já está em andamento.
“Pode ser que daqui a dez, quinze anos nós falemos: o Nonato esteve na Câmara, falou sobre isso e nós não demos ouvidos”, disse.
Kedo Tolentino adotou um tom mais crítico. O vereador disse que já havia feito cobranças relacionadas ao Resgate quando presidiu a Câmara e questionou os resultados apresentados diante dos recursos destinados à entidade. Kedo se colocou ao lado de Kaká na defesa de providências para aprofundar o assunto.
“Nós estamos precisando aprimorar. Se quiser tomar providência nesse sentido, assino embaixo”, afirmou.
Já Evandro da Ambulância, que relembrou sua própria trajetória no atendimento e transporte de pacientes no município, defendeu que o cuidado com quem está em situação de vulnerabilidade esteja acima de disputas ou divergências internas.
“Quem trabalha nessa área tem que gostar, tem que querer. Tem que ser muito humano”, declarou.
Maurilo do Sindicato ponderou que também existem experiências positivas com o SAMU. Ele relatou ter acompanhado uma ocorrência em que a equipe chegou rapidamente e tratou a vítima de forma adequada. Para ele, justamente por isso, situações diferentes devem ser identificadas e encaminhadas oficialmente.
Maurilo defendeu que, diante de relatos de tratamento inadequado, sejam buscadas informações sobre a ocorrência e, se necessário, encaminhadas cobranças.
Frederico Amorim também defendeu que a Câmara aprofunde as informações sobre o Resgate Voluntário, incluindo horário de funcionamento, responsáveis atuais e estrutura disponível.
“Nós queremos que o Resgate funcione. Se não está funcionando, nós temos que investigar a causa”, afirmou.
Tindora do Chico Vilaça lembrou que a preocupação de Nonato com pessoas em situações de emergência não começou agora. Recordou épocas em que ele e familiares utilizavam veículos particulares para auxiliar quem precisava e destacou sua experiência como motorista.
Durante o debate, Darley Lopes chamou atenção para uma diferença importante. Segundo o vereador, alguns atendimentos descritos por Nonato foram realizados pelo SAMU e não pelo Resgate Voluntário de Cláudio.
Darley ponderou que as reclamações precisam, portanto, ser direcionadas ao serviço responsável por cada ocorrência. “Quando se fala em Resgate, é uma instituição, e o SAMU é outra”, destacou.
Mesmo após a diferenciação entre os dois serviços, a fala abriu outro debate, sobre o funcionamento atual do Resgate Voluntário de Cláudio.
Kaká Amorim defendeu a realização de uma audiência pública para que a Câmara possa compreender a situação da entidade, ouvir seus responsáveis e esclarecer questionamentos levantados no plenário. O vereador lembrou que há recursos públicos destinados ao Resgate e defendeu transparência sobre o serviço prestado.
Ao mesmo tempo, Kaká ponderou que nenhuma conclusão deve ser tomada ouvindo apenas um lado. “A gente não toma decisão em cima de uma fala. Você tem que ouvir os dois lados, tem que ser justo”, afirmou.
O momento que mais chamou atenção ocorreu quando Nonato utilizou um quadro branco para desenhar o trajeto e explicar aos vereadores sua preocupação com a nova ligação da Avenida Dr. Silveira.
Com base na experiência como carreteiro, ele questionou como veículos pesados conseguirão vencer a descida, posteriormente subir carregados e, principalmente, realizar a conversão para acessar a Avenida JK, diante de uma estrutura existente próxima ao ponto.
Nonato diferenciou uma carreta convencional de composições maiores, como bitrens e rodotrens, argumentando que o raio necessário para a manobra pode tornar o acesso difícil.
“É necessário fazer? É. Mas, na minha opinião e na opinião de muitos profissionais carreteiros, está no lugar errado”, disse.
Em outro momento, resumiu sua preocupação em duas perguntas:
“Cadê o acesso das carretas? Cadê o acesso à JK?”
A crítica não passou sem contraponto.
Darley Lopes disse discordar da interpretação de que a nova avenida esteja sendo construída como uma via destinada a retirar caminhões da cidade. Segundo ele, a proposta é melhorar a mobilidade urbana e a ligação com bairros em expansão, além de oferecer novas alternativas de deslocamento.
“Eu preciso discordar do senhor nesse sentido. Acho que a Avenida Dr. Silveira vai ser, sim, um avanço na mobilidade da nossa cidade”, afirmou.
Simental reconhece alerta sobre acesso
Ao final, o presidente Simental agradeceu a participação de Nonato e também defendeu a importância da Avenida Dr. Silveira. Ele afirmou, porém, que não havia considerado anteriormente a dificuldade que carretas maiores poderiam encontrar naquele ponto.
“Eu não tinha pensado nisso. Você veio aqui e trouxe isso, e isso é muito importante”, afirmou.
Simental lembrou que a ligação já vem sendo utilizada mesmo antes da conclusão das melhorias e ressaltou que a Câmara permanece aberta a manifestações da população.